O Censo Agro mexe com você

Quando um jovem com camiseta e chapéu do IBGE bater na porteira, dê-lhe suas informações.


Já foi dito que só conhecemos o que somos capazes de medir. Exemplo: sair de casa sem saber a previsão do tempo. Você pode se molhar e pegar resfriado. Fazer negócios sem saber a medida do seu mercado. Você terá surpresa desagradável. Ou conduzir a economia sem medir sua realidade: seria irresponsabilidade do gestor público.

O Censo Agro, apelido curto para o recenseamento agropecuário brasileiro, que vai a campo no dia 1.º de outubro, é um esforço gigantesco para medir a realidade de um setor crucial para todos nós, o agronegócio e seu ambiente. Sem esse levantamento o governante decide praticamente às escuras quando define políticas agrícolas e sociais para o campo brasileiro. No entanto, desde 2007, quando foi realizado o Censo Agro pela última vez, estamos sem saber como vai o setor que responde pelo abastecimento alimentar do País, pela maior parte de nossas divisas e, no mínimo, por 25% de nossos empregos diretos e indiretos.

O Censo Agro mexe com cada uma dessas dimensões de interesse geral e vai mais longe: mede a produção e os preços praticados na safra colhida e na produção animal e silvícola. Mede a mão de obra empregada e fotografa as características principais do produtor, seja ele grande, pequeno ou microempresário. O Censo Agro investiga com atenção especial a chamada agricultura familiar, categoria responsável por cerca de 80% dos questionários do levantamento. Inventaria também o maquinário existente e estima as áreas usadas ou preservadas nos estabelecimentos rurais. Identifica as fontes de captação d’água. Levanta despesas do produtor e permite calcular o retorno econômico e a situação social e ambiental, além das práticas de plantio em cada estabelecimento. Vê o uso do crédito e da informação rural.

O Censo Agro vai fundo na busca da verdade do campo. Já por volta de maio de 2018 os resultados desse enorme levantamento – talvez o mais extensivo do planeta (!) – ficarão disponíveis. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é o órgão responsável pelo desafio de escrutinar cada canto do País, visitando mais de 5 milhões de estabelecimentos rurais de todos os tipos e tamanhos. Às vezes falamos do IBGE sem saber direito o que é e o que faz esse instituto para melhorar o nosso dia a dia. O IBGE é a luz invisível da informação que governos e pessoas usam para decidir e atuar. E o Censo Agro é parte vital desse painel de informações de alto conteúdo. O trabalho do Censo Agro será feito durante cinco meses a partir deste outubro, empregando um exército de 26 mil jovens engajados com identificação e um smartphone adaptado na mão, que marcará cada produtor rural na telinha digital com sua posição precisa e colherá dados em 40 minutos de entrevista, logo enviada à central de processamento informático do IBGE. Tudo com tecnologia desenvolvida dentro de casa pelos talentosos técnicos do IBGE.

Mas a história do Censo Agro 2017 não estaria completa sem contarmos como ele nasceu. Não foi de parto natural. Teve de ser induzido. Essa gravidez vinha sendo rejeitada desde 2011, quando o censo, que deveria ter sido realizado a cada cinco anos, teimava em não deslanchar. O governo Dilma Rousseff não deu a mínima bola para o Censo Agro, que ficou no papel. A cada novo Orçamento federal, mais um adiamento. Chegou a vez da proposta orçamentária para 2017, em meio à crise fiscal do início da gestão Temer. Mais uma vez faltou espaço nas contas públicas.

Mas no IBGE fomos à luta, buscando recursos por meio de uma emenda de iniciativa do Congresso Nacional. Difícil de ser acolhida, muito mais de ser votada e aprovada. Mas confiamos e apostamos. Havia no Congresso parlamentares com a visão do interesse nacional. E de todos os matizes políticos, da esquerda à direita. No Senado Federal, quem capitaneou a proposta foi a fora de série Ana Amélia (PP-RS), senadora exemplar e completa. Na Câmara dos Deputados formou-se um timaço numa Frente Parlamentar da Geografia, Estatística e Meio Agroambiental (Frente da Gema), coordenada por Carlos Melles (DEM-MG), líder na agrorrepresentação nacional. O ministro do Planejamento, Dyogo de Oliveira, também pôs seu time na rua e trouxe o restante do governo. O relator-geral do Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa 2017), senador Eduardo Braga (PMDB-PA), acolheu a emenda inédita, de R$ 505 milhões, valor jamais alcançado numa emenda de comissão. E com a influência e a força do setor produtivo e da área acadêmica, o Censo Agro 2017 começou a virar realidade.

Por obra e graça de um coletivo formado por Congresso, IBGE, governo e opinião pública. O resto ficou por conta de uma equipe de valorosos ibgeanos que conseguiu compactar, em tempo recorde, um levantamento antes pensado para ser feito com o triplo de entrevistadores e o dobro da verba. Uma vez condensado o questionário da pesquisa, sem perda de substância nem de área de cobertura, o IBGE tornou viável o Censo Agro, de outra forma impossível em razão da restrição de recursos que vivemos hoje.

Nesse sentido, o Censo Agro 2017 já parte vitorioso, mesmo antes da sua primeira entrevista. Provou-se possível, no país do desperdício, fazer mais (e melhor!) com menos. Mostrou-se que de uma boa causa nenhum bom Congresso escapa, nem quer esquivar-se de votar nela. Evidenciou-se, afinal, que um País mais sério e maduro, com objetivos e planos coerentes, não é sonho, não. Basta querer e fazer acontecer, com serenidade e determinação.

Quando aquele jovem usando camiseta e chapéu do IBGE bater na porteira de sua fazenda, abra para ele as suas informações, que o IBGE as manterá em absoluto sigilo, até mesmo do Fisco. Informe corretamente, pois seremos nós todos os beneficiários de um País capaz de medir e fazer as contas certas. E que não deixará ninguém para trás.

*Presidente do BNDES, ex-presidente do IBGE (de julho 2016 a maio 2017), professor em economia agrícola desde 1977, agradece a todos os que tornaram viável o Censo Agro 2017.