Pesquisadores identificam 12 possíveis portas de entrada de nova praga no País

Doze estados brasileiros podem servir de porta de entrada para uma nova praga no País.


O alerta é dos pesquisadores da Embrapa – unidades de Meio Ambiente e de Gestão Territorial da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – para Alagoas, Bahia, Espirito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Roraima, São Paulo e Sergipe. Estas regiões foram priorizadas pelo trabalho da estatal por terem mais probabilidade de surgimento da praga.

O estudo “Identificação de regiões brasileiras suscetíveis ao ingresso e estabelecimento de Chilo partellus” relata que a lagarta é originária do continente asiático, onde está presente em vários países, e já se encontra em áreas do Oriente Médio e da costa leste da África, com uma ocorrência na Austrália. Embora a fase adulta do inseto seja uma mariposa, os danos da praga são reportados, principalmente, em sua fase jovem, como lagarta, em cultivos de arroz, cana-de-açúcar, milho, milheto, sorgo, trigo, além de gramíneas silvestres.

“A Chilo partellus é considerada praga de importância para o comércio internacional de commodities, em uma dezena de países estrangeiros, desde 2012, por ter sido interceptada em materiais importados. No Brasil, o inseto está priorizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) como praga quarentenária A1 e, portanto, não presente no País, mas com risco de entrada com potencial para causar impacto econômico em cultivos de nacionais”, informa a pesquisadora Jeanne Scardini Marinho Prado, da Embrapa Meio Ambiente, em entrevista à equipe SNA/RJ.

QUARENTENÁRIAS

Segundo a especialista, o trabalho de pesquisa de pragas quarentenárias facilita o conhecimento do problema e permitindo prospectar o comportamento destes organismos vivos, nos cultivos no Brasil, com maior potencial para serem acometidos por tais pragas exóticas.

“Por esta razão, avaliar aspectos de bioecologia de Chilo partellus, como também as tendências de maior adaptação em condições nacionais em áreas com maior potencial de serem acometidas em caso de sua chegada e de futura dispersão, a partir de focos principais, bem como resgatar alternativas de controle de sucesso, é estratégico para subsidiar as ações preventivas de defesa fitossanitária no Brasil”, conta Jeanne.

Ela também ressalta que, por este motivo, antes da chegada da praga ao território brasileiro, “é igualmente necessário identificar sua origem, distribuição mundial, principais cultivos hospedeiros, principais rotas, aeroportuárias e marítimas, que contribuam com a sua dispersão mundial para que interceptações em locais mais propícios à entrada sejam bem sucedidas”.

“Deste modo, igualmente importante é prover instrumentos de seu reconhecimento por parte da defesa oficial para a identificação correta da Chilo partellus.”

 CULTIVOS DE HOSPEDEIROS

Também pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Maria Conceição Peres Young Pessoa ressalta, em entrevista à equipe SNA/RJ, que o trabalho de pesquisa, feito em conjunto com a unidade de Gestão Territorial, constatou que existe uma maior chance da Chilo partellus entrar no País.

“A praga pode vir em material proveniente de outras nações com cultivos de hospedeiros principais já atacados pelo inseto, prioritariamente os que chegam ao Brasil por rotas marítimas intensas, vindas do Sul da Ásia e de toda a Costa Leste e Sul Africana em direção aos principais portos brasileiros, principalmente pelo Sul e Sudeste do Brasil”, ressalta Maria Conceição.

Por se tratar de uma praga que ataca preferencialmente milho, uma cultura presente em grande parte do território nacional, a especialista alerta que os cuidados de interceptação devem ser redobrados: “O potencial de adaptação do inseto às condições locais, considerando fatores abióticos (temperatura, umidade relativa e pluviosidade), também é importante, porque a maior adaptação, após a entrada, possibilitará a ocorrência de novas gerações e da praga se disseminar”.

Segundo Maria Conceição, mesmo que a chegada da Chilo partellus acometa, inicialmente, cultivos hospedeiros preferenciais, que tenham áreas plantadas mais concentradas em certos Estados da federação – tais como arroz no Rio Grande do Sul ou cana-de-açúcar em São Paulo –, “a sua não identificação correta favoreceria elevações populacionais e consequentes danos aos cultivos”.

INFORMAÇÕES

A unidades da Embrapa Gestão Territorial e de Meio Ambiente estão preparando materiais para repassar informações mais detalhadas para alertas quarentenários preventivos para a Chilo partellus, assim como de outras pragas quarentenárias de instrução normativa vigente.

Para conhecer melhor a praga, até visualmente falando, o pesquisador Luiz Alexandre Nogueira de Sá, que também participou deste trabalho pelo Laboratório de Quarentena Costa Lima, da Embrapa Meio Ambiente, entrou em contato com o professor Johnnie van den Berg, gerente do Sub-Programa de Manejo Integrado de Pragas da Unidade de Ciências Ambientais, da North-West University, na África do Sul, que trabalha com a Chilo partellus no continente Africano. Berg forneceu imagens da lagarta do inseto para facilitar seu reconhecimento.

De Sá relata dados da literatura internacional que apontam: de modo geral, o desenvolvimento de ovo a pupa de Chilo partellus varia conforme fatores climáticos locais, de 43 a 55 dias.

“Os ovos possuem aproximadamente 0,8 milímetros de comprimento e formato plano-oval de coloração branco-cremosa. São depositados, geralmente próximos às nervuras das folhas, em lotes sobrepostos”, conta o pesquisador.

Depois de sete a dez dias de desenvolvimento, segundo o especialista, nascem as lagartas: “Elas apresentam colorações variando de branco-cremosa a marrom-amarelada. Possuem quatro listras longitudinais de coloração roxo-marrom e geralmente apresentam manchas castanho-escuras ao longo do dorso, razão pelas quais são conhecidas como “broca manchada da haste” (Spotted stem borer)”.

Ao completarem a fase de crescimento, as lagartas apresentam cabeça proeminente de coloração castanho-avermelhada. As mais jovens alimentam-se das folhas no verticilo; e as mais velhas fazem galerias nas hastes, alimentando-se e nelas se desenvolvem.

“Esta fase tem duração aproximada de 28 a 35 dias. Dependendo de fatores climáticos podem entrar em diapausa, com duração de meses a um ano. Quando completam o ciclo, empupam permanecendo no interior da haste do milho”, relata De Sá.

Ainda conforme o pesquisador, as pupas são delgadas, medindo até 15 milímetros de comprimento; são brilhantes com coloração amarela-luminosa/marrom a vermelho-escuro/marrom.

“A fase de pupa demanda oito a dez dias, após os quais emergem os adultos. Na fase adulta transformam-se em mariposas, com comprimento variando de 7 a 17 mm e envergadura de 20 a 25 mm. As asas apresentam coloração marrom-amareladas, com padrão listrado longitudinal em coloração marrom-escuro. As asas traseiras apresentam coloração diferenciadas nos machos e nas fêmeas (macho com coloração palha-pálida e fêmea com coloração branca). Os adultos são mais ativos a noite”, explica o especialista.

Segundo o Museu Entomológico do Mississipi da Universidade Estadual do Mississipi (MSU), a confirmação da espécie deve ser feita por análise morfológica da genitália, uma vez que pode ser confundida com outras espécies de Chilo e com Diatraea saccharalis; desta última, se diferencia também pela presença de ocelos.

“A D. saccharalis é uma praga de cana-de-açúcar e de milho já presente no Brasil”, comenta De Sá.

ESTRAGOS

Pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Jeanne Scardini explica que a lagarta Chilo partellustem demonstrado ser um inseto colonizador eficiente e uma praga com potencial de dano considerável, dependendo do local onde ocorre.

“Os danos da praga são reportados em sua fase jovem (lagarta), principalmente em cultivos de milho e sorgo, mas o inseto também pode colonizar plantas de arroz, trigo, cana-de-açúcar, milheto e gramíneas silvestres”, reforça.

Como os principais danos são causados pelas lagartas em plantas de milho, esses são os mais conhecidos e difundidos pela comunidade internacional. “Neles estão incluídos: o consumo das folhas, a abertura de grandes galerias nas hastes e nas espigas, os danos na panícula, o acamamento de plantas, a interrupção no fluxo de nutrientes e a consequente morte de pontos de crescimento, formando o chamado “coração morto”, com as folhas centrais mortas, facilmente destacáveis e folhas externas ainda verdes”, pontua Jeanne.

Segundo ela, plantas de milho jovens e de médio tamanho são frequentemente mortas pelo ataque desta praga: “Infestações de plantas jovens de milho podem causar perdas que podem variar entre 10% e 20% até 80% da produção. Tais perdas ocorrem por causa dos danos já citados”.

NOTIFICAÇÃO

Em caso de suspeita de presença de praga quarentenária no Brasil, avisa a pesquisadora Maria Conceição, “a suposta ocorrência deve ser notificada oficialmente à Secretaria de Defesa Agropecuária-SDA do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), para que o material seja coletado no local e identificado por laboratório credenciado pelo Mapa para a confirmação da espécie no País”.

“Estamos atuando em parceria com a Secretaria de Defesa Vegetal, do Mapa, onde procuramos gerar informações em base territorial para subsidiar planos e ações de controle da entrada e da disseminação de pragas quarentenárias no território nacional, por meio de análises geoespaciais de dados sobre a praga, distribuição de culturas hospedeiras, localização de vias de dispersão, entre outros”, conta o engenheiro agrônomo Rafael Mingoti, supervisor do Núcleo de Análises Técnicas Embrapa Gestão Territorial (SP), em entrevista à equipe SNA/RJ.