Salada ou sopa?

Expor ao público em geral os perigos dos herbicidas intrinsecamente ligados ao uso de sementes geneticamente modificadas tem sido uma constante. A distância entre risco e perigo é enorme. A culinária se tornou uma paixão mundial nos últimos anos. Não so­mente pela indiscutível necessidade de nos alimentarmos, mas também pelo incrível incremento das informações disseminadas.


*Flavio Zambrone

Nem todas as receitas apresentadas podem, entretanto, ser chamadas de culinária, que tem seus alicerces em ex­perimentos realizados pelas “nonnas” e repetidos exaustivamente por seus sucessores. E a ciência, em especial a Toxicologia, foi construída por meio de experimento e observação. Há re­gras básicas a serem seguidas, senão a “maionese” desanda.

Todos nos alimentamos diariamen­te, porém somente alguns são críticos gastronômicos. Destes, se espera que tenham senso apurado, habilidades e saibam distinguir entre o tecnicamente bem preparado e o modismo.

A preservação do meio ambiente e da saúde não é um modismo, é ne­cessidade. Todos temos um papel im­portante neste processo e, por que não dizer, fundamental. Sem o conheci­mento técnico e a informação correta, salada pode virar sopa – afinal, os in­gredientes são os mesmos.

E a proteção dos recursos naturais não pode prescindir do auxílio da tec­nologia criada pelo homem. E aqui se incluem os químicos do nosso dia a dia. No campo, local de onde vem os ingredientes para nossa sopa ou salada, o que você preferir, estes produtos es­tão presentes há séculos.

Na Antiguidade, acreditava-se que as pragas eram castigo dos Deuses. E eram combatidas com rituais religio­sos. Na idade média, eram julgadas nos tribunais eclesiásticos. Data de 2.500 a.C. o primeiro registro do uso de quí­micos no combate a insetos, quando sumérios usaram enxofre para este fim.

De lá para cá, a convivência do ho­mem com o meio ambiente e os pro­dutos químicos evoluiu bastante, sen­do seu uso na agricultura um tema que certamente fascina a muitos. O volu­me de informação sobre agrotóxicos, ou do temos em inglês “pesticide”, é muito grande. O desafio é filtrar esta imensa quantidade de informações, se­parar o certo do errado e não transfor­mar “sopa em salada” e vice-versa.

Muito se tem publicado sobre agro­tóxicos, defensivos agrícolas e suas aplicações. Comecemos pelo termo adotado. Deveríamos ser cuidadosos e isentos: o certo é praguicida, derivado do inglês “pesticides”. Isto é o que se espera de quem pretende informar cor­retamente sobre o tema, seja ele cien­tista, regulador, fabricante, usuário ou jornalista.

Com frequência vejo afirmações de que o Brasil é o líder mundial no uso de praguicidas na agricultura e alguns exaltam ainda a mazela de que somos campeões em intoxicações. Misturam no mesmo “prato” trabalho escravo, carga tributária, cancro cítrico, dengue, zika, guerra e todo e qualquer tempe­ro que estiver à mão. Médicos acham mais fácil atribuir aos praguicidas os males que não conseguem diagnosti­car, cientistas mal preparados assumem a mesma postura, sem comprovação ou convicção outra que não a ideológica. O que restou à população foi padecer de uma nova moléstia, a quimiofobia. Sim, quimiofobia é a mais nova doença no dicionário médico.

Apesar de até hoje não ter sido de­monstrado que causem danos à saúde dos consumidores, os produtos origi­nados desta tecnologia ainda são vis­tos com desconfiança. Expor ao públi­co em geral os perigos dos herbicidas intrinsecamente ligados ao uso de se­mentes geneticamente modificadas tem sido uma constante. A distância entre risco e perigo é enorme. As agên­cias reguladoras, como a ANVISA, têm o dever de avaliar o risco e prote­ger os cidadãos. Este processo requer o comprometimento de toda a socieda­de, principalmente com o uso da me­lhor informação científica disponível. Esta é uma decisão que deve ser equili­brada, sem espaço para paixões outras que não a verdade científica, metodo­logicamente testada e validada. A AN­VISA tem feito o seu papel: está reava­liando dois destes herbicidas, o 2,4 D e o glifosato.

O 2,4-D é um herbicida seletivo disponível comercialmente há 70 anos.

Ao longo deste período as agências reguladoras de mais de 90 países em todo o mundo têm avaliado a toxicida­de e seu risco.

Já o glifosato, comercializado desde 1974, é utilizado em mais de 160 paí­ses, sendo provável e esperado que este uso tenha sido aprovado após o regis­tro e a autorização dos órgãos regula­tórios de cada um deles, considerando as diferentes exigências e a capacidade técnica de avaliação de cada país.

Nesta área informar o público cor­retamente é o que traz segurança. Exa­gerar ou informar erroneamente os riscos, usando mais a emoção do que a razão e ultrapassando os limites da preocupação toxicológica e do critério científico, é desinformação.

E pode fazer “salada virar sopa”.

*Médico toxicologista, doutor em medicina, especialista em Saúde Pública e Presidente do Instituto Brasileiro de Toxicologia.