Como semear a inovação

Em artigo no Valor Econômico, Mário Von Zuben, diretor executivo da Andef, comenta sobre como a crise pode ser oportuna para o País crescer.


*Mário Von Zuben

Nos últimos meses de 2015, quando ainda estava em busca de votos, o presidente eleito de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, escolheu como símbolo de sua campanha a também lusitana Maria Pereira, de 30 anos de idade, considerada pelo Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, um dos 35 pesquisadores com menos de 35 anos mais inovadores em 2014. A pesquisadora desenvolveu uma supercola biológica que pode revolucionar cirurgias cardíacas em recém-nascidos, ao substituir os pontos e adaptar-se ao organismo conforme a criança cresce.

Ao vincular a imagem da pesquisadora à sua, Rebelo de Sousa quis mostrar a seus compatriotas a importância para o desenvolvimento quando o País investe de forma decisiva em educação e ciência. Decerto, o novo presidente português não venceu o pleito apenas pelo exemplo de Maria Pereira. No entanto, sua escolha aquilata o papel da inovação não somente para os europeus, e sim para qualquer nação interessada em proporcionar um futuro melhor a seus conterrâneos.

No Brasil, o entusiasmo com a inovação parece estar em caminho oposto. Em que pesem os esforços de empresas e instituições dedicadas a promover as áreas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), os indicadores internacionais que medem a evolução dos países nessa área têm classificado o Brasil em posições ano a ano piores.

Um dos mais respeitados é o Índice Global de Inovação, organizado pela Universidade Cornell, de Nova York, nos Estados Unidos, pela Insead, escola francesa de pós-graduação em negócios, e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Wipo, na sigla em inglês). Esse estudo mostra os mercados que mais se destacaram na promoção de um ambiente favorável à inovação.

Na edição de 2015, o Brasil ficou na 70ª colocação, numa amostra de 141 países. Isso representou uma queda de nove posições em relação ao ranking de 2014. A pesquisa analisou indicadores relacionados à inovação, política, economia e a outros fatores importantes para o desenvolvimento de novas tecnologias e serviços.

Nas primeiras colocações do ranking, ocupadas por países desenvolvidos, praticamente não houve mudança. No primeiro lugar, ficou a Suíça (também primeira em 2014). Em segundo aparece o Reino Unido (mesma posição de 2014). Em terceiro, a Suécia (tal qual em 2014). No quarto lugar, a Holanda (quinta em 2014). E na quinta posição figuram os Estados Unidos (sexto colocado em 2014).

O estudo também perscrutou os países pelo índice de eficiência, destacando os que promoveram um ambiente em prol da inovação com menos recursos, bem como os que apresentam potencial inovativo e não conseguiram desenvolvê-lo com sucesso. Nesse índice de eficiência, o Brasil ficou na 99ª colocação.

Moçambique, bem mais pobre que o Brasil, subiu doze posições — foi da 107ª posição em 2014 para a 95ª no ranking geral —, registrou melhorias nas áreas de capital humano, sofisticação econômica e produção de tecnologia do conhecimento.

O Brasil também continua perdendo terreno em inovação em relação a outros países em outro índice recém-divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, como registrou o Valor Econômico em sua edição de 17 de março último. O número de demandas brasileiras de patentes internacionais caiu 5,7% no ano passado, para 547. O declínio acumulado nessas demandas em dois anos chega a 16,74%, com menos empresas investindo em inovação.

Em comparação, o México aumentou em 12,7% os pedidos de patentes em 2015, depois de alta de 21,9% no ano anterior. “As cifras sobre demandas de patentes são um bom indicador da atividade e da geografia da inovação”', declarou Francis Garry, diretor-geral da Wipo. A situação brasileira vai na contramão da tendência mundial. A Wipo nota que 2015 foi marcado por um forte aumento do número de demandas de patentes em escala global, com alta de 1,7%. No caso brasileiro, o setor que mais pediu registro de patentes foi o de tecnologias médicas, com 7,3% do total, segundo a entidade. Os Estados Unidos mantêm a liderança, com 44.235 pedidos de registro de patentes. Mas o aumento global no período ocorreu principalmente por causa da China, que atingiu 29.846 novos pedidos.

Outro levantamento feito pela consultoria Strategy& (antiga Booz & Company) leva em consideração os gastos com P&D das mil maiores empresas de capital aberto do mundo. A edição de 2015, organizada com informações de balanços de 2014, constata que o Brasil perdeu duas empresas na lista das companhias que mais inovam no mundo, voltando a ter apenas seis representantes. Essas aplicaram, em conjunto, US$ 2,3 bilhões em P&D em 2014, uma queda de 13,5% em relação a 2013.

As perspectivas apontam tempos de desafio. Premido pela necessidade de recursos, o governo federal suspendeu uma série de incentivos tributários na medida provisória que instituiu o ajuste fiscal no fim do ano passado e entrou em vigor no começo deste. Entre eles, os incluídos na chamada Lei do Bem, que permitia que investimentos aplicados em P&D e inovação fossem deduzidos de uma série de impostos.

Mais do que perder posições em rankings de inovação, com tais recuos o País reduz suas chances de superar as dificuldades econômicas. Como escreveu recentemente o economista Cláudio de Moura Castro: “A ciência é uma planta frágil. Não pega de galho nem de sementes lançadas a esmo. Requer muito desvelo para prosperar e voltas frequentes às grandes matrizes produtivas, de onde brotam as ideias mais férteis”.

*Mário Von Zuben é engenheiro agrônomo pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ESALQ/USP, e pós-graduado em Gestão Estratégica de Negócios, pela Universidade de Calgary, Canadá e diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef).

Fonte: Jornal Valor Econômico