A pauta que vai às mesas

A cobertura jornalística acerca dos defensivos agrícolas. 


*Antonio Carlos Moreira

O jornalismo brasileiro, de indiscutível qualidade, demonstra, porém, resistência na apuração de temas de cunho técnico-científico. De fato, Ciência não é a editoria mais almejada nas redações; nestas, são mais atraentes reportagens que dizem respeito ao grande público – Esportes, Cultura, Lazer e notícias do mundo artístico. Ou seja, pouco lhes interessa reportagens áridas – por exemplo, sobre os insumos usados na fabricação de produtos. Pois bem. Vale notar como um insumo utilizado nas plantações tem sido destaque na imprensa nacional: os defensivos agrícolas, ou agrotóxicos, como se popularizou. A pauta sobre os defensivos conquistou o horário nobre, como o Jornal Nacional, da TV Globo, páginas de jornais e revistas e muitos bytes na internet.

Mas, o que chama a atenção são três distorções na cobertura jornalística acerca dos defensivos agrícolas: a) a falta de rigor no levantamento dos dados e na apuração fatos; b) a não orientação pelo conhecimento científico sobre o tema; e c) a falta de isenção na abordagem, ocultando diferentes ângulos do assunto e não oferecendo a palavra às partes interessadas. Não é difícil constatar, na imensa maioria das reportagens sobre a relação alimentos-agrotóxicos, a falta de observância desses princípios que deveriam nortear a cobertura jornalística.

Um dos aspectos que explica a imprensa nacional exacerbar os “riscos” dos agrotóxicos foi ter se acentuado, nos últimos anos, uma visão distorcida: por um lado, é contrária ao universo da Química e, por outro, supervaloriza o que parece “natural”.

Jornalistas que transferem para sua reportagem esta visão não tiveram acesso ao texto da UNESCO, órgão da ONU para Educação, Ciência e Cultura, que declarou 2011 como Ano Internacional da Química: “Todos os processos da natureza são originados por reações químicas, que constituem a base para a produção de alimentos, medicamentos, combustíveis, metais e inúmeros outros produtos. A ciência da Química tem contribuição essencial no progresso econômico e na promoção de um meio ambiente cada vez mais saudável”.

O número de reportagens e o “interesse” de repórteres, blogueiros e ativistas de redes sociais pela pauta dos agrotóxicos poderiam ser explicados pelo “risco” que os produtos pudessem oferecer. Ocorre que este risco é desmistificado por Jerry Cooper e Hans Dobson, autores do estudo “The benefits of pesticides to mankind and the environment” (Natural Resources Institute – University of Greenwich), em que classificam trinta principais fatores de riscos à saúde de pessoas, com base em ocorrências de hospitais nos Estados Unidos.

Embora apurados em 1990, nada sugere mudanças significativas nos números. Entre os trinta fatores de risco, o estudo classifica os defensivos agrícolas em 28º lugar; os conservantes de alimentos, em 27º; os eletrodomésticos, em 15º; e o fumo e o álcool ficaram em primeiro e segundo lugar, respectivamente. Ou seja, as pessoas correm risco maior por um acidente caseiro com o liquidificador ou por apreciarem um bom vinho do que na lida com agrotóxicos na lavoura ou pelo consumo de alimentos cultivados com este produto.

*Jornalista; pós-graduado em Economia de Empresas pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas associada à Universidade de São Paulo (Fipe-USP) e em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração também associada à USP (FIA-USP) e gerente de Comunicação da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef).