O importante papel da Defesa Vegetal

O artigo foi publicado na Revista A Granja


O processo produtivo de alimentos tem recebido inúmeros desafios a serem alcançados para os próximos anos. O Brasil possui uma posição de destaque tendo grande potencial para contribuir no crescimento da produção de alimentos. Entre 1960 e 2010, o país aumentou sua produção em grãos em 774%, enquanto a área cultivada aumentou 116%, segundo a Sociedade Rural Brasileira (2012). Estes números foram alcançados graças à adoção de tecnologias pelos produtores brasileiros impulsionando a produtividade e, sabe-se que somente através deste recurso o país irá alcançar novos níveis de produção agrícola. Devido a este desafio e pela importância econômica que o setor agrícola tem no Brasil, as ameaças fitossanitárias devem ser consideradas como assunto de segurança nacional.

Com o aumento do trânsito de mercadorias e de pessoas transportando materiais passíveis de abrigar pragas agrícolas, além da possibilidade de ingresso natural das pragas através da extensa faixa de fronteira, um maior número de casos tem sido relatado ao longo dos anos.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) publica lista de pragas quarentenárias ausentes e presentes no Brasil. São pragas que podem entrar, se estabelecer e disseminar no país podendo causar problemas para a agricultura. Apesar das relações das pragas ausentes e as presentes no país, mas que estão restritas a algumas regiões, sabemos que o risco não se limita somente a estas pragas, prova disto é que há relatos de três novas pragas encontradas que não estavam nas listas de pragas quarentenárias do MAPA.

Como exemplo do impacto na agricultura, inúmeras pragas, que eram exóticas, hoje são pragas chaves no manejo de campo. Podemos citar o Bicudo do Algodoeiro (Anthonomus grandis) que hoje é a principal praga do algodão; Ferrugem da Soja (Phakopsora pachyrhizi) é considerada a pior doença da história da soja; Broca do Café (Hypothenemus hampei) sendo praga chave para a cultura do café. Essas e outras pragas demandam bilhões de reais anualmente para realizar um controle efetivo. Considerando os prejuízos gerados e o potencial de comprometimento da produção de alimentos, uma política fitossanitária com prevenção, monitoramento e fiscalização são de extrema importância para minimizar a entrada e o estabelecimento de novas pragas no Brasil. O relato das três pragas a seguir evidencia a importância do papel da Defesa Fitossanitária Brasileira em fortalecer as barreiras.

 Helicoverpa punctigera

Do mesmo gênero que sua “prima” H. armigera, a Helicoverpa punctigera é suspeita de estar presente no Estado do Ceará. A suspeita veio por causa de monitoramentos realizados na região para identificar a presença de H. armigera. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) enviou, em setembro deste ano, uma comissão ao nordeste para identificar de qual praga realmente se trata, porém ainda não houve um posicionamento oficial do Ministério.

Relatada a presença em lavouras da Austrália (G.P. Fitt & S.C. Cotter), a H. punctigera apresenta alta capacidade reprodutiva, adaptação à diversos ambientes, diapausa facultativa (hiberna quando as condições ambientais são desfavoráveis)  e capacidade de manifestar resistência aos inseticidas utilizados. Assim como a H. armigera, apresenta polifagia e agressividade mostrando grande potencial destrutivo.

Melanagromyza sp.

Conhecida como “mosca da haste da soja”, foi encontrada, por pesquisadores do Laboratório de Manejo Integrado de Pragas (LabMIP) da Universidade Federal de Santa Maria, na safra 2014/2015 em municípios de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Apesar de já ter sido citada no passado devido sua importância, em 2015 a espécie M. sojae foi listada como praga de grande risco a entrar no Brasil pelo Dr. Marcelo Lopes da Silva (EMBRAPA).

A fêmea deposita seus ovos na face inferior das folhas próximo às nervuras. Quando as larvas eclodem, iniciam sua alimentação pelo limbo foliar e posteriormente migram para o pecíolo e seguem broqueando em sentido à haste principal. As galerias formadas internamente impedem a visualização das injúrias dificultando a detecção da praga no campo. Esta identificação precisa ser feita através de amostragem realizando um corte transversal da haste. A presença de orifício na haste também é um sinal da presença da larva, pois antes de pupar realiza o orifício para posteriormente a utilizar como saída e concluir o ciclo migrando para fase adulta (Telekar & Chen., 1986). Segundo o Dr. Jerson Carús Guedes, a praga ataca todas as fases da cultura da soja, caracterizado por orifícios de saída em diferentes alturas da planta. A alta mobilidade do adulto e desenvolvimento larval dentro da planta são características que dificultam a sua identificação e controle efetivo.

Embora não tenham sido realizados estudos de biologia térmica, a espécie desenvolve-se melhor em condições de clima ameno. Por esse motivo, o Dr. Guedes recomenda não realizar o plantio de soja em safrinha para evitar que a praga se multiplique.

Amaranthus palmeri

Originária do Centro Sul dos Estados Unidos e Norte do México, A. palmeri (família Amaranthaceae) é a principal planta daninha das lavouras de algodão nos Estados Unidos. Recentemente a sua presença foi detectada em dois municípios do Mato Grosso, Tapurah e Ipiranga do Norte. As fazendas foram identificadas e isoladas com o objetivo da erradicação da espécie. Este trabalho está sendo realizado pelo INDEA (Instituto de Defesa Agropecuária do Estado do Mato Grosso).

A espécie apresenta características peculiares que se diferenciam de outras espécies de Amaranthus, como presença de flores femininas ou masculinas nas plantas, sendo uma característica que facilita a identificação entre espécies em sua fase reprodutiva. As plantas femininas produzem sementes quando polinizadas pelas plantas masculinas, mas como se não bastasse, a planta fêmea também apresenta a possibilidade de realizar apomixia facultativa, produzindo sementes sem que haja polinização pela planta masculina. O metabolismo fotossintético é do tipo C4, apresentando maior eficiência na conversão de água, gás carbônico e luz em açúcares. Essa maior eficiência garante vantagem competitiva com as plantas cultivadas, prova disto é que a espéciepalmeri cresce cerca de 2-3 cm por dia. De tamanho reduzido, as sementes produzidas são o principal meio de infestação de novas áreas. Em média 400 mil sementes são produzidas por planta. Assim como nos EUA, no Brasil também já foi identificada resistência múltipla à herbicidas.

Por sua agressividade e alta capacidade de dispersão, seu manejo deve ser realizado o mais cedo possível. Para isto, é essencial a correta identificação da espécie através de suas características particulares. Apresentam pecíolos maiores ou iguais ao comprimento do limbo foliar, folhas distribuídas simetricamente em torno do caule quando vista de cima, e às vezes apresentam manchas esbranquiçadas em forma de “V”. As inflorescências femininas apresentam brácteas “espinhosas”, sendo esta a melhor maneira de diferenciar de outras espécies na sua fase reprodutiva.

Há a necessidade de elaboração, por parte do governo, de avaliações de risco mais rápidas das principais pragas para se dimensionar o impacto que poderá acontecer caso a praga se instale no país. Ainda assim, um Plano de Contingência estabelecendo medidas de prevenção, providências emergenciais e definição de papéis a serem cumpridos por todos os envolvidos. É importante que este Plano de Contingência tenha um planejamento prévio que permita atuar de forma rápida e eficiente em caso de detecção ou surto de uma nova praga.

De acordo com os centros de pesquisas do país, o que se recomenda para combater as novas pragas após reconhecimento por parte do MAPA, é a utilização do monitoramento e Manejo Integrado que são práticas já bastante difundidas e podem ser encontradas referências em publicações e informações constantes nos sites das empresas de pesquisa do país.

Para saber mais sobre estas e outras pragas da agricultura brasileira, acesse o portal DefesaVegetal.Net (www.defesavegetal.net).

*Eng. Agr. Luis Carlos Ribeiro – Gerente Técnico e de Regulamentação Estadual.

*Eng. Agr. Rafael Cordioli Pereira – Assistente Técnico e de Regulamentação Estadual.