Fenômeno El Niño

Impactos na agricultura.


*Eduardo Daher

A safra brasileira de grãos no período 2015/16 se inicia frente às incertezas climáticas. Os produtores rurais não temeriam tais riscos – inerentes à sua lida incansável – não fossem as dimensões dos impactos que os especialistas vêm apontando.  As consequências de um inverno que finda ter sido um dos mais quentes nos últimos anos ainda não são definitivas. De acordo com relatório da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, do Departamento de Comércio Americano (NOAA), há 90% de chance que o fenômeno El Niño continue afetando o clima em novembro e 85% de probabilidade que o fenômeno manterá seus efeitos até o início da primavera de 2016. Frente à complexidade da agricultura tropical nas dimensões geográficas brasileiras, os possíveis impactos do El Niño na agricultura exigem ainda mais atenção.

Em termos de produtividades médias, de maneira geral não deverá haver grandes variações. Mas aspeculiaridades regionais da produção agropecuária no País recomendam se estabelecer o cenário em suas diferentes áreas. Assim, no Sul do Brasil se verificam precipitações acima da média, enquanto estão abaixo da média no Nordeste brasileiro; este quadro climático causa reduções na produtividade na agricultura dessas regiões devido aos excessos ou às deficiências hídricas para as culturas.

Na região Centro-Oeste, que inclui os estados grandes produtores de soja, milho, algodão e arroz, as chuvas têm sido benéficas às essas culturas.Porém, com o aumento do calor logo após as precipitações, há maior período de molhamento foliar e o desenvolvimento de doenças.Este quadro climático é propício para o desenvolvimento da ferrugem asiática na cultura da soja; a chuva em excesso dificulta o controle da doença, pois inviabiliza a pulverização e prejudica a eficácia dos defensivos.

Na região Sudeste, aprodução de frutas e hortaliças está sendo prejudicada, pois o aumento da chuva, seguido do aumento da temperatura, gera perda do produto. Vale ressaltar também que a produção pecuária leiteira passa por dificuldades na região.

Na região Nordeste, onde a Bahia se tornou importante fronteira de cultivo de algodão e soja, tem se observado a incidência também da ferrugem asiática.  Já no Norte, há fruticultura irrigada, que não corre risco aparente com o El Niño. O período de seca pode até melhorar a qualidade da produção. 

Nos estados da região Sudeste, a produção de frutas e hortaliças está sendo prejudicada pois as precipitações, seguidas do aumento da temperatura neste inverno atípico, gera altas perdas de produtos, por si sensíveis a intempéries. A produção da pecuária leiteira também passa por dificuldades na região. Nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em geral o aumento da chuva tem beneficiado as culturas de milho e soja. Contudo, quando a chuva se prolonga no período de colheita, tem prejudicado os trabalhos a campo, gerando perda de produtividade e qualidade dos produtos. O principal impacto do El Niño é com a soja, que perde quase 80% da safra. Já as temperaturas quentes podem trazer benefícios para a cultura do trigo, pois diminuem a possibilidade de geadas.

Os novos desafios climáticos exigem que os agricultores redobrem as melhores práticas de manejo integrado em seus cultivos recomendadas pela pesquisa. As mudanças na temperatura e precipitações desordenadas tendem a afetar, por exemplo, a eficácia de fungicidas, inseticidas e herbicidas, o que exigirá decisivos estímulos à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)  de novos ingredientes ativos. Este é, justamente, um dos grandes nós da questão: a Ciência e as inovações vêm sendo duramente penalizados pela lentidão verificada no marco regulatório brasileiro. Os processos para aprovação de novas moléculas têm se prolongados, em média, ao longo de seis anos. 

*Eduardo Daher é economista pela Faculdade de Economia e Administração, FEA/USP, pós-graduado pela FGV-SP e diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal, Andef.