Ideologia e Ciência

Opostos que nunca se atraem.


*Ângelo Zanaga Trapé

Quando a ideologia entra pela porta de uma instituição, a ciência é expulsa pela janela. Décadas após o professor Zeferino Vaz, médico sanitarista e criador da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, ter proferido esta frase lapidar, sua advertência permanece rigorosamente atual. De fato, nota-se ganhar força na opinião pública um movimento que desdenha o rigor científico e tende a condenar, de modo irrefletido, as modernas tecnologias utilizadas na agricultura e na agroindústria mundial.

Entre aqueles que militam nos movimentos de saúde, a maioria não possui nenhuma vivência clínica, em Toxicologia, por exemplo. Ainda assim, propagam estudos cientificamente precários procurando apontar nexos causais entre a exposição a determinadas substâncias e efeitos na saúde humana. Somam-se a essas vozes agentes como membros de movimentos politizados, artistas da mídia televisa, figuras do meio gastronômico e mesmo funcionários abrigados em governos ditando regras, proferindo palestras em instituições sérias Brasil afora.

Ao analisar, porém, o conteúdo desses trabalhos com base nos critérios estabelecidos no método científico em Toxicologia, todos seriam desprovidos de valor, pois não apresentam dados compatíveis com resultados toxicologicamente aceitos pelos parâmetros internacionais. Em outras palavras, tais trabalhos não são comprobatórios de efeitos à saúde humana nos níveis de exposição que os agricultores apresentam atualmente.

Pelos dados clínicos dispomos no Brasil, como o Programa de Atenção à Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, com mais de 30 anos de atividades, o impacto da exposição de longo prazo aos agroquímicos na saúde das pessoas é insignificante quando são respeitadas as orientações de uso seguro e correto dos produtos, com boa tecnologia de aplicação e uso de proteção individual. As intoxicações e mortes por agroquímicos são mais de 90% intencionais em tentativas de suicídio e mesmo homicídio em todo o país.

Em relação ao consumo de alimento in natura, os resultados apresentados, em 2014, no Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, PARA, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), demonstram ampla segurança em termos de resíduos, comparável a qualquer país do mundo desenvolvido, não determinando nenhum risco à saúde na ingestão dos alimentos produzidos pela agricultura convencional.

Utilizar o método científico nas investigações de possíveis impactos das tecnologias na saúde humana é o desafio que se impõe hoje às instituições acadêmicas e de pesquisa sem vieses de quaisquer naturezas – principalmente o ideológico.  Pois, se é verdade que os opostos se atraem, nesta questão toxicológica não há como ter proximidade entre a Ciência e a Ideologia.

*Médico pela Universidade Estadual de Campinas, Unicamp; coordenador da Área de Saúde Ambiental, do Programa de Monitoramento de Populações Expostas a Agrotóxicos, Departamento de Saúde Coletiva, Faculdade de Ciências Médicas, da Unicamp.