A verdade vindo à tona

Caso Shell Paulínia.


*Angelo Zanaga Trapé
 
Em 06/11/2015 no Correio Popular foi divulgada uma matéria sobre o Caso Shell Paulínia envolvendo ex-trabalhadores e moradores em que fica mais claro o real objetivo de toda a movimentação dos grupos sociais e sindicais e escritórios de advogados em torno do caso amplamente conhecido pela detecção de resíduos  de agroquímicos organoclorados em poços de chácaras da empresa Shell no bairro chamado Recanto dos Pássaros, em Paulínia. 
 
Cerca de 70% dos antigos funcionários que foram contemplados com planos de saúde vitalícios para cuidar da saúde supostamente prejudicada pela contaminação ambiental residual do local da antiga fábrica da Shell por inseticidas organoclorados, estão buscando acordos com a empresa Shell para receber valores em espécie (1 milhão de reais cada um) e declinar dos planos de saúde. 
 
Quais os motivos dessa atitude da ampla maioria dos “contaminados”? Como está a saúde dessas pessoas já que não mais interessa às mesmas fazer acompanhamento médico periódico? Onde estão as doenças causadas pela “contaminação”? 
 
O presidente do Sindicato dos Químicos Unificados diz que todas essas pessoas são traidoras e devem ser expulsas de uma associação criada no calor da emoção denominada Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (ATESQ). Vale informar que exposição é diferente de contaminação e intoxicação; aliás, todos os trabalhadores da indústria química em todo o mundo estão expostos a substâncias químicas, mas não obrigatoriamente contaminados ou doentes. 
 
Triste cena, pobre atores que até geraram películas cinematográficas dramáticas induzindo a sociedade à noção de que o evento de Paulínia não tinha precedentes na história e que os trabalhadores e moradores do entorno da fábrica estavam contaminados de forma crônica e com evoluções críticas da saúde com alto risco de morte por câncer e outras doenças crônicas. 
 
Foram realizadas análises toxicológicas das mais variadas, no sangue, no cabelo, até com procedimentos invasivos como biópsia de gordura e laudos médicos assinados por profissional especialista contratado pela Prefeitura Municipal de Paulínia, todos com diagnóstico, até em menores de idade, de intoxicação crônica por inseticidas organoclorados com sérios danos à saúde a longo prazo. 
 
Muitos tomaram várias medicações, a maioria delas sem nenhuma indicação específica, que seriam para melhorar a sua saúde (???). Muitos moradores do entorno que tinham sua vida e sobrevivência no local onde moravam tiveram que sair por força policial, perdendo tudo que tinham, seu trabalho, suas casas, seu ganha pão, sua vida e foram viver em hotéis, apertados por ações judiciais que duraram mais de uma década. 
 
A pergunta que se apresenta agora é: os cerca de 70% de “contaminados” que receberam plano de saúde vitalício; como está a sua saúde? 
 
Nas estatísticas que o Sindicato apresenta de ex-trabalhadores que morreram no período não há como se estabelecer nexo causal entre o trabalho na empresa e a causa do óbito. 
 
Quem lucrou com esse engodo científico? Qual a explicação para que essas pessoas estejam querendo dinheiro e não atenção à saúde? 
 
Qual é o papel dos órgãos públicos de saúde nesse episódio? Secretaria de Saúde Municipal de Paulínia? Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo que avalizou todos os laudos médicos de “contaminação” e “intoxicação crônica” dessas pessoas? Qual a opinião do médico especialista contratado pela Prefeitura de Paulínia que assinou os laudos? 
 
Qual o acompanhamentos de saúde que essas pessoas estão tendo e os resultados de suas avaliações clínicas e laboratoriais? 
 
Toda pessoa que tem um diagnóstico de intoxicação crônica deve ter um segmento clínico sistemático; onde estão esses dados atuais? 
 
Quais efeitos crônicos estão sendo monitorados pelos planos de saúde? 
 
A mídia em geral tem feito de maneira sistemática matérias até impactantes sobre o tema e deram ampla cobertura quando a empresa Shell realizou um acordo na Justiça do Trabalho repassando valores na ordem de R$ 600 milhões para instituições de pesquisa e assistência ao Câncer (ótimo para a saúde pública brasileira que anda à mingua) e as instituições são extremamente sérias e com ótimos resultados nessa área. 
 
Mas a ação civil ainda não terminou, ou seja, não foi determinado nexo causal entre a contaminação ambiental e efeitos na saúde dos ex-trabalhadores e moradores do entorno até o momento. 
 
Então diante desse novo fato de ação dos cerca de 70% de ex-trabalhadores que querem dinheiro e não plano de saúde, pergunta-se: Quais efeitos crônicos essas pessoas apresentam e quais dados de saúde estão disponíveis para que se possa demonstrar se há nexo causal ou não? 
 
Com a palavra os ógrão públicos de saúde municipal e estadual, o médico especialista contratado que emitiu os laudos, a ATESQ e o Sindicato dos Químicos Unificados. 
 
*Prof. Dr. Angelo Zanaga Trapé é coordenador da área de Saúde Ambiental do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.