Ameaça à riqueza gaúcha

Pressões de movimentos organizados contra tecnologias podem fazer com que o Rio Grande do Sul retroaja à agricultura de 60 anos atrás, dizimando riquezas que se tornaram símbolo desta terra.


Formada às custas de muito suor, lutas e desafios, a história da agricultura gaúcha foi o primeiro pilar do que se chama, hoje, de agronegócio brasileiro. Destes campos – tão bem retratados por Érico Veríssimo, que consagrou o pastoreio e a lida da terra como um das tradições culturais do nosso Estado –, saíram os desbravadores que construíram potências outras que semeiam o chão e colhem o grão. Mato Grosso, Goiás, Piauí, Oeste Baiano e outros novos polos agropecuários são, na verdade, extensões das técnicas e competência agrícola que nasceram em terras rio-grandenses. Ou seja, pode-se afirmar que o histórico vanguardista de transformar a terra crua em celeiro de alimento é gaúcha por excelência. Contudo, aos poucos, e por razões não muito claras, o Rio Grande do Sul pode estar prestes a abrir mão de sua história, de suas raízes e de sua condição ímpar de exportador de alimentos. 

Paira sobre nossas terras o risco iminente de ceder aos caprichos de quem não semeia, não planta, não produz. Ocorre que o Rio Grande do Sul teve uma lei, 7.747, criada em 1982, que, se colocada em prática como pretendem alguns vetores do atraso, este imenso estado verá a pobreza se espalhar como uma doença sem remédio. E esse é justamente o foco da questão – a garantia do alimento em nossas mesas e de milhões de brasileiros.
A lei estadual determina que todo defensivo agrícola – tecnologia empregada na de proteção das plantações –, seja também registrado em seu país de origem. Por exemplo, uma molécula inovadora para a cultura do arroz e descoberta num país da Europa, segundo a lei deverá ter seu registro naquele país. Caso contrário, sua utilização estaria proibida, mesmo diante de todas as aprovações e registros em três ministérios, por meio de seus órgãos reguladores. A fundamentação para tal argumento está no equivoco de que para comprovar a segurança de uma determinada substância há a necessidade de que haja o registro também nos países onde esses produtos são formulados. Os defensores dessas teses valem-se da ideia ingênua de que o “Primeiro Mundo” despejaria produtos com pouca segurança e que só o aval em seus locais de origem. 
Tal pensamento, além de carregado de tola ideologia, demonstra ignorância científica e dos processos desenvolvidos pelo Estado Brasileiro. O mais grave: pode acarretar em prejuízos para milhares de famílias gaúchas que dependem dessas tecnologias para levar adiante suas lavouras – e milhões de brasileiros que dependem dos alimentos aqui produzidos. A salvação da lavoura pode ser, justamente, um novo projeto de Lei que regulamente essa polêmica. Porém, tal iniciativa tem encontrado resistência diante setores mais conservadores ligados não ao ambientalismo sério e consequente, mas sim a uma visão ideológica ultrapassada. 
 
Os processos de aprovação de produtos para proteção de cultivos passam por rigorosa análise em diferentes órgãos como Ministério da Agricultura, Ministério do Meio Ambiente e Anvisa. Não se pode duvidar da capacidade técnica e científica desses órgãos, sobretudo por regularem a agricultura mais competitiva do mundo. 
 
Muitos dos produtos usados nas lavouras brasileiras são desenvolvidos para agricultura tropical. Ou seja, atacam problemas relativos a países com calor e umidade elevados. Fungos, por exemplo, são problemas típicos de países com clima mais quente e úmido. A ferrugem da soja, doença causada por um fungo de origem asiática, capaz de dizimar a produção nacional, é só um exemplo. Nos países em que são formulados tais produtos de proteção de cultivo, não há ferrugem asiática – e, na maioria dos países, não existe sequer a cultura da soja. O mesmo se pode dizer, por exemplo, do arroz, que tem no Rio Grande do Sul a maior produtor brasileiro, com 64% da produção nacional e renderá ao Estado, este ano, R$ 4,8 bilhões. Somadas estas, outras culturas importantes para os agricultores gaúchos – como uva, milho e trigo, e produtos como leite, frango, carne bovina e suína –, somente estas cadeias do agronegócio representarão para o Estado, em 2012, um valor de produção, dentro da porteira, de expressivos R$ 26 bilhões de reais.
 
Verdade seja dita, os movimentos ambientais, que clamam pela parcial ou total banimento de produtos de defesa ao cultivo brincam com um patrimônio nacional que é a vocação para plantio de alimentos. Certamente os defensivos agrícolas não são a única tecnologia disponível. Fertilizantes, técnicas de plantio entre outros compõem esse pacote brasileiro de tecnologia. Mas, o fato é que se essa lei for levada a cabo, os impactos são imprevisíveis. Soja, arroz, forrageiras, milho e outras culturas típicas do Rio Grande do Sul, certamente terão perdas incalculáveis. O Rio Grande do Sul vem passando por sérios problemas em sua agricultura, achacado por secas consecutivas e brinca-se de impedir que o produtor faça aquilo que ele sabe melhor fazer: produzir alimentos e fazer deste país uma grande nação.