Agricultura em primeiro lugar

A população mundial, hoje, de 6,8 bilhões de pessoas, disputa recursos naturais cada vez mais escassos - independentemente dos efeitos de mudanças climáticas. Porém, não faz sentido insistir no falso dilema “preservar ou desenvolver”.


*José Otavio Menten

Entre os dias 16 e 18 de novembro, em Roma, reuniram-se especialistas de vários países para a Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar, convocada pela ONU. Mais do que debater idéias, o fórum pretendeu convencer líderes de governos para a necessidade de um maior engajamento no combate à fome. Pois no encontro faltaram justamente os líderes dos países do Primeiro Mundo, exceto Itália -anfitriã do evento. Talvez também por isso, lamentavelmente, o fórum teve repercussão tímida na mídia e junto à opinião pública no Brasil e internacional. Por sua vez, é interessante notar a presença maciça no noticiário da 15ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas, COP 15, que aconteceu um mês depois, em Copenhague, na Dinamarca. Também promovido pelas Nações Unidas, esse encontro, sim, monopolizou as articulações de líderes de governos de mais de uma centena de países. As preocupações sinceras com o meio ambiente, sem dúvida, se justificam.

A população mundial, de 6,8 bilhões de pessoas, disputa recursos naturais cada vez mais escassos -independentemente dos efeitos de mudanças climáticas. Porém, não faz sentido insistir no falso dilema “preservar ou desenvolver”. Este leva a outro equívoco, cujas consequências se desenham trágicas: o empenho tépido, pouco decidido, das lideranças mundiais diante do drama da fome. Preservar o meio ambiente e gerar alimentos não são tarefas excludentes -ocorre exatamente o oposto: integram-se, em sua essência, na própria existência da humanidade. Porque a razão do planeta são as pessoas, os desafios colocados a ambos exigem uma agenda positiva que compreenda e valorize a missão crucial da agricultura.

No Brasil, há cerca de duas décadas, os arranjos estratégicos envolvendo entidades do setor, comunidade científica, institutos de pesquisa, órgãos de governos e empresas elevaram a agricultura brasileira ao status de uma das mais competitivas do mundo. Em âmbito mundial, louve-se o esforço mobilizador da FAO. Também com alcance internacional, acaba de ser lançada uma iniciativa liderada por pesquisadores, acadêmicos e profissionais dos segmentos produtivos: o programa Farming First -no Brasil, traduzido pelas entidades apoiadoras como Agricultura em Primeiro Lugar (www.farmingfirst.org). Seu elenco de propostas se destaca por ter sido formulado sob a égide da sustentabilidade que marca o século 21; as diversas ações sugeridas se apoiam em seis pilares: preservar os recursos naturais; partilhar a Ciência e o conhecimento com os agricultores; criar acesso e meios de gestão dos insumos de proteção e recursos financeiros; proteger as culturas de danos climáticos, pragas e má conservação dos alimentos; facilitar o acesso ao mercado; priorizar a pesquisa.

Dos planos às ações. Não é recente o apelo de lideranças para que o país estabeleça uma política agrícola clara, abrangente e factível. Hoje, no entanto, os desafios impostos pela segurança alimentar sugerem à sociedade como um todo ampliar sua visão ambiental. Os agricultores, principalmente os pequenos, nos países pobres e em desenvolvimento, serão as primeiras vítimas das alterações climáticas, de acordo com os especialistas.

Para poupar recursos naturais -terra, água e energia -o aumento deverá ocorrer com o rendimento das lavouras, através das inovações tecnológicas; cite-se como exemplo: de acordo com um estudo da FAO, sem a tecnologia de defesa vegetal, as pragas devoram cerca de 38% dos alimentos nas lavouras. Ainda segundo o órgão, para que um terço a mais da população atual tenha alimentos no ano de 2050, a produção agrícola deverá aumentar em 70%. Portanto, se do campo vêm alimentos, fibras e matérias-primas vegetais renováveis para produção de energia para o mundo, a agricultura é o centro das soluções sustentáveis.

José Otavio Menten é mestre em Fitopatologia, doutor em Agronomia e consultor institucional da Associação Nacional de Defesa Vegetal, Andef.