O futuro vem do campo

A missão da agricultura mundial de prover alimentos para toda a população de 2050 – com 2,3 bilhões de pessoas a mais – exige tecnologias eficientes em sua produção. A preocupação foi tema do I Fórum Inovação, Agricultura e Alimentos para um Futuro Sustentável, realizado em outubro, em São Paulo.


A previsão está feita. Daqui a 40 anos, o planeta terá cerca de 2,3 bilhões de pessoas a mais. Dos atuais 6,8 bilhões, a população mundial crescerá para 9,1 bilhões de habitantes. Entre diversos desafios que acompanham o aumento populacional, como prover moradia, saneamento básico e educação, o mais dramático é suprir a demanda dos alimentos. De acordo com a FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, para que a agricultura mundial cumpra esta missão, será necessário investir US$ 83 bilhões por ano em países em desenvolvimento, um acréscimo de 50% nos investimentos atuais alocados para o setor.

As preocupações sobre o crescimento populacional e necessidade de aumento de produção sustentável na agricultura foram compartilhadas entre representantes do setor agrícola e alimentício durante o I Fórum Inovação, Agricultura e Alimentos para o Futuro Sustentável. O encontro aconteceu no último dia 15 de outubro, em São Paulo, e reuniu cerca de 150 participantes. A iniciativa da Andef, Associação Nacional de Defesa Vegetal, recebeu apoio da FAO, do Instituto para o Agronegócio Responsável – ARES –, da Sociedade Rural Brasileira e do Grupo Pão de Açúcar.

A estimativa da FAO sobre a demanda, em 2050, de cereais para alimentação humana e animal é de cerca de três bilhões de toneladas. Ou seja, a produção anual de cereais deverá crescer quase um bilhão de toneladas, em relação aos 2,1 bilhões de toneladas de hoje. A produção de carne precisará aumentar, das atuais 200 milhões de toneladas, para um total de 470 milhões de toneladas. Desse total, 72% serão consumidos nos países em desenvolvimento – um crescimento de até 58%.

A demanda por alimentos deverá ser cada vez maior não apenas por conta do crescimento populacional, mas também pelo aumento da renda. Um estudo recente divulgado pela LatinPanel, maior empresa de pesquisa domiciliar da América Latina, revela que pessoas de baixa renda, que convivem com enormes lacunas no consumo de itens básicos, com R$ 1 extra no bolso já vai às compras, especialmente de alimentos. O gasto com comida pesa 30% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE, que mede a inflação das famílias mais pobres, com renda de até cinco salários mínimos.

O impulso das tecnologias

Aumentar a produtividade mundial de alimentos em 70%, de maneira sustentável, foi o tema central debatido no I Fórum Inovação, Agricultura e Alimentos. O índice é definido pela FAO como condição efetiva para que um terço a mais da população possa se alimentar daqui 40 anos. Cerca de 90% desse aumento de produção, de acordo com a FAO, será proporcionado pelo rendimento das lavouras, intensificado pelas inovações tecnológicas incorporadas à atividade rural.

O investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para o campo é o único caminho para o produtor rural produzir mais, utilizando menor área. A defesa agropecuária é um dos itens estratégicos em um planejamento político agropecuário. O segmento de defensivos agrícolas investe cerca de 12% de seu faturamento em novas tecnologias. Sem o controle eficiente de pragas e doenças nas plantações, o Brasil estaria muito longe da posição que hoje ocupa no cenário mundial.

As tecnologias de proteção vegetal evitam perdas nas culturas da ordem de 38%. Pode-se calcular as conseqüências dramáticas com uma suposta escassez de frutas, hortaliças e grãos – como milho, arroz, soja e feijão –, apenas para citar alguns itens imprescindíveis na cesta de alimentos da população. As boas técnicas que vêm sendo utilizadas no campo, incorporando as tecnologias geradas pela pesquisa brasileira, têm dado clara contribuição para que o Brasil seja o principal país produtor de alimentos num futuro muito próximo.

Se a tarefa de produzir alimentos em larga escala frente ao aumento demográfico já será imenso, pode-se avaliar o desafio, para todas as nações, de tornar esta missão exitosa diante da limitação dos recursos naturais. Quando grandes pensadores colocam os dez maiores problemas – ou desafios – que o mundo enfrenta hoje, e continuará enfrentando no futuro, dois estão diretamente ligados à agricultura: alimento e meio ambiente.

Há um debate radical recente sugerindo que a agricultura e a produção de alimentos não podem caminhar juntas. Porém, produtor rural, responsável pela produção dos alimentos de toda a população, é, antes de mais nada, um aliado do ambiente. O setor agrícola, neste cenário, tem a oportunidade de dialogar abertamente com a população urbana sobre a importância da produção de alimentos, respeitando o ambiente e criando uma agenda positiva entre esses dois setores.

Crise alimentar

A FAO calcula que mais de 1,2 bilhão de pessoas estão hoje em situação de subnutrição crônica no mundo. Isso significa que um a cada seis habitantes do planeta não possui alimentação adequada. José Tubino, representante da Organização no Brasil, apresentou, durante o I Fórum Inovação, o mapa da subnutrição e desnutrição no mundo. No caso do Brasil, 12 milhões de pessoas sofrem de desnutrição, o que representa 6% da população. Apesar de o número ser preocupante, Tubino elogiou o país, que em comparação com outras nações, tem avançado de forma surpreendente com políticas públicas criativas e inovadoras.

A Índia e a China apresentam o pior quadro em números absolutos de pessoas subnutridas, com 250 milhões (22% da população) e 127 milhões (10% da população), respectivamente. Quando o referencial é o percentual da população, a República Democrática do Congo aparece com alarmantes 75% da população em situação de subnutrição crônica, seguido pela Eritreia (África), com 63%, e pelo Haiti (América Central), com 58%.

Existe uma preocupação, por parte da FAO, de que o problema da fome seja esquecido, frente a outras crises que vêm acontecendo de forma simultânea. Trazer o tema para a agenda política em nível mundial foi o principal objetivo do último encontro do Comitê Mundial de Segurança Alimentar, realizado em Roma, entre 16 e 18 de novembro de 2009. Um dos planos para o Comitê é que ele esteja articulado com comitês nacionais de segurança alimentar, a fim de que os problemas da fome sejam traduzidos para a criação de políticas públicas e programas de ações concretas.

Neste âmbito, o Brasil tem lançado importantes iniciativas, como ações focadas na agricultura familiar e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 047/2003, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, CONSEA. A PEC sugere que a alimentação seja um direito humano registrado na Constituição Federal brasileira. Após passar por todas as votações no Senado e ser aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados, no último dia 3 de novembro, a proposta segue para segundo turno. “Por não estarem acontecendo em todo o mundo, essas iniciativas colocam o Brasil, dentro do tema da segurança alimentar, em um papel de liderança”, afirmou o representante da FAO.

Planejamento político

O desenvolvimento do Brasil depende do desenvolvimento do setor agrícola, uma das principais forças que impulsionam o país. A afirmação foi de Daniel Vargas, ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, durante sua apresentação no I Fórum Inovação, Agricultura e Alimentos. A agricultura ainda não possui política pública que ofereça clareza ao produtor, diferentemente de outros importantes temas, como educação, transporte e energia.

Três premissas fundamentais devem ser preenchidas para que o plano político voltado para o agronegócio seja bem-sucedido, segundo o ministro: trabalhar para promover a industrialização rural – o que agregará valor ao campo –, superar um contraste nocivo e arbitrário – que permitirá um modelo único para a agricultura, e não uma familiar e outra empresarial –, e estimular a construção de uma classe média rural forte no país.

No planejamento, devem constar aspectos considerados prioritários para o setor do agronegócio brasileiro, tanto em termos de obras físicas como institucionais. O primeiro é a recuperação de áreas degradadas, em que há os desafios técnico, tecnológico e econômico: o custo da degradação versus o benefício da recuperação. Para recuperar 1 hectare de área degradada, é necessário um investimento entre R$ 3 mil e R$ 4 mil, enquanto o investimento em uma área nova gira em torno de R$ 600.

Outro ponto fundamental é o transporte. Há muita dificuldade de escoamento da produção no país e, em algumas regiões, a logística responde por 40% do total investido, tornando-se muito onerosa para o produtor. O Governo Federal prevê o término a curto prazo de duas obras, a BR 163 e a Ferrovia Norte-Sul, e a implantação da Hidrovia Tapajós-Tele Pires. A integração desse sistema com outras formas de transporte resultariam em um barateamento de frete, já que aumentaria a concorrência entre si.

Falta incentivo para a agricultura

A agricultura é o setor mais importante da economia brasileira, e mesmo assim, é muitas vezes abandonada pelas políticas de estado. De acordo com Cesário Ramalho, presidente da Sociedade Rural Brasileira, o produtor enfrenta diversos problemas na agricultura brasileira. A logística, por exemplo, é uma questão fundamental, mais importante do que a própria produção. “Hoje, não adianta obter excelência no produto se não houver a logística, que no Brasil possui custo altíssimo, chegando próximo aos 10%”, afirmou Ramalho.

O presidente da entidade apontou que o capital não está chegando ao campo de maneira adequada para que os 50% de aumento de produtividade seja alcançado com êxito. Não há um sistema de seguro compatível com aquilo que é produzido. Na safra 2009/2010, por exemplo, o sojicultor terá prejuízo: em março, quando ele for vender o grão, ele estará valendo R$ 31 a saca. Hoje, o hectare de soja custa R$ 1,6 mil, ou seja, para equiparar a produção seria necessário que ele vendesse cerca de 40 sacas, cada uma valendo R$ 40, condição muito improvável, de acordo com a previsão do representante rural.

Inovação é saída para sustentabilidade

A inovação, a ciência e a tecnologia são a saída para a sustentabilidade, afirmou o físico e ex-presidente da Embrapa, Silvio Crestana, no Fórum Inovação, Agricultura e Alimentos. As tecnologias convergentes já são realidade no agronegócio brasileiro, como a nanotecnologia e as pesquisas com OGM´s – Organismos Geneticamente Modificados.

Como forma de práticas sustentáveis, é possível ver sistemas integrados em áreas tradicionais e de expansão, como a integração de produção de bioenergia e alimentos ou a integração de lavoura-pecuária-floresta. Segundo o pesquisador, esses sistemas aumentam a produtividade do agricultor e ainda podem ajudar na preservação ambiental.

O que está sendo realizado hoje traz impactos positivos no futuro. Os elementos corretos dessas consequências estão sendo buscados, para que os tomadores de decisão possam agir corretamente. Hoje não é mais uma opção, passou a ser um dever para o Brasil alimentar o mundo. O desafio agora é conquistar a liderança em produção e manter a sustentabilidade.

Rastreabilidade chega ao varejo

Após quatro anos de estudo, o Grupo Pão de Açúcar criou o programa “Qualidade desde a Origem”, que visa mapear e obter o controle de Frutas, Legumes e Verduras (FLV) comercializados pela rede, do campo até o consumidor. Com informações sobre o processo de produção, é possível tomar ações corretivas diretamente na lavoura, caso seja necessário. O diretor comercial de FLV do grupo, Leonardo Miyao, participante do Fórum Inovação, conta que o programa foi uma medida necessária para garantir a segurança alimentar do consumidor, além de valorizar e diferenciar a qualidade dos produtos ofertados pela rede varejista.

O Grupo Pão de Açúcar faz uma análise nas amostras para identificar quantidades irregulares de resíduos de defensivos agrícolas. Hoje, a empresa ampliou o número de princípios ativos pesquisados, chegando aos 250, mais do que o programa PARA – Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos –, da Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Indicadores de sustentabilidade

A missão do Instituto para o Agronegócio Responsável, ARES, é contribuir para o desenvolvimento da sustentabilidade, geração e difusão de conhecimento e estruturação de canais permanentes de diálogo. De acordo com Ocimar Villela, diretor-superintendente do Instituto, palestrante no Fórum Inovação, Agricultura e Alimentos, ainda precisamos de estudos relacionados ao tema sustentabilidade, pois muitos discursos feitos atualmente sobre o assunto são vazios. Uma das metas da entidade é trazer cada vez mais tecnologia para esse discurso, pois é o caminho para que os paradigmas da área sejam mudados.

Um dos projetos estratégicos discutidos atualmente pelo ARES é chamado Do Campo à Mesa, uma análise de indicadores da agropecuária, realizada da porteira para dentro. O projeto já é desenvolvido nos Estados Unidos e está sendo criado no Brasil em parceria com diversas empresas. Para avaliar o sistema produtivo brasileiro, o Instituto alega a necessidade de indicadores de sustentabilidade. Com esta ferramenta, seria possível avaliar a conservação do solo e fornecer resultados concretos aos consumidores.

Indústria de Alimentação crescerá até 1,5%

A indústria brasileira da alimentação adquire 55% de tudo o que é produzido pela agropecuária do país, segundo Amílcar Lacerda, gerente de Departamento de Economia e Estatística da Associação Brasileira da Indústria de Alimentação, ABIA. Além disso, boa parte do investimento dessa indústria é feito em conjunto com a agricultura. No passado, era muito complicado fazer investimento cooperativado entre a indústria e o setor agropecuário, mas as normas e legislações para investimento em pesquisa e desenvolvimento no Brasil sofreram alterações que trouxeram melhorias. O relacionamento, portanto, é muito forte entre os dois setores.

O setor alimentício deve registrar um crescimento de até 1,5% neste ano, alcançando o valor de R$ 290 bilhões. Em agosto, o segmento apresentou alta de 3% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Além do faturamento, a ABIA espera elevar sua participação no PIB, passando de 9,3% no ano anterior para 9,5% neste ano. Porém, as exportações devem cair, principalmente por conta de produtos como a carne, óleos e suco de laranja.

Amílcar Lacerda apontou, durante o Fórum Inovação, a questão da sustentabilidade como uma grande preocupação para a indústria. Para manter a exportação em crescimento e atender a demanda internacional, que continuará crescendo, principalmente nos mercados emergentes, é necessário que haja um aumento de produtividade. Neste ponto, é fundamental que o setor de alimentos também veja com muita atenção a prática do desenvolvimento sustentável.

José Otavio Menten é mestre em Fitopatologia, doutor em Agronomia econsultor institucional da Associação Nacional de Defesa Vegetal, Andef.